Adriano Colangelo
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Notáveis Personagens da Idade Média

September 6, 2018

A Idade Média costuma ser conhecida como um período obscuro para os estudiosos, para as artes e para a cultura em geral. Não à toa, durante muito tempo foi chamada por alguns de “Idade das Trevas”. Entretanto, justiça seja feita, tal época da humanidade apresenta diversos aspectos positivos, que inclusive já delineavam o caminho para o humanismo visto no Renascimento. São deles que pretendemos tratar no presente texto por meio da breve citação de algumas de suas facetas.

 

   É digno de nota o fato de certos ambientes medievais possuírem “células” para desenvolver um cenário cultural. Saltimbancos (artistas itinerantes que se apresentavam nas mais diversas localidades, com números de teatro, malabarismos, músicas etc.), pequenos conjuntos instrumentais e monges amanuenses (que viviam nos mosteiros e abadias e colocaram em manuscritos o legado cultural e filosófico de civilizações como a grega e a romana) fomentavam o lado artístico e criativo do período – ainda que tal conhecimento não fosse difundido entre a população. Porém, vale lembrar que em determinadas aldeias e cidades da Itália, circulavam trovadores e menestréis, cujos cantos e músicas representaram, sem dúvida, os primeiros exemplos da criação instrumental.

   Como é sabido, a Igreja possuía grande poder na referida época. E, mesmo que se ressalte a já citada negativa concentração do saber por parte de seus dirigentes – o que, efetivamente, se tornava uma forma de dominação sobre a população iletrada, – a Instituição também apresentava importantes talentos artísticos. A monja alemã, teóloga e poetisa entre outras atribuições, Hildegard Von Bingen, que viveu de 1098 e 1179, destacou-se na música com obras como: o auto sacro Ordo Virtutum e a Symphonia Armonie Celestium Revelationum, uma coletânea de cantos e invocações mântricas para uso litúrgico e semilitúrgico.  

   Um dos aspectos mais interessantes sobre Hildegard é que ela conquistou um papel relevante na música e também em assuntos teológicos e científicos (pesquisava ervas medicinais, por exemplo) em uma época em que as mulheres sofriam forte preconceito e eram relegadas a uma posição subalterna. Ganha ainda mais destaque o feito de Hildegard se considerarmos que ela alcançou esse respeito dentro da Igreja Católica, instituição mais poderosa e conservadora da época.

   Há de se destacar que as catedrais góticas, particularmente as francesas e as alemãs, eram excepcionais monumentos de arte. Suas arquiteturas, vitrais coloridos e esculturas continham notável significado simbólico, o que era certamente o cenário ideal para a monja mística Hildegard desenvolver não somente sua profunda devoção, mas também sua vocação musical. Essa produção poético-musical foi inspirada, segundo ela, durante suas “visões místicas”.  Ela talvez seja a primeira compositora feminina de música vocal, daí o fato de se constituir numa das esplendorosas luzes medievais, ao lado de Dante Alighieri e outros.

   Neste ponto cabe apontar uma de suas obras em especial, o auto musicado “Ordo Virtutum”, que compartilha de certa temática semelhante a que será trabalhada por Dante em “A Divina Comédia”. Neste auto, Hildegard dramatiza musicalmente a busca pela redenção de uma alma. Os personagens principais são a Alma, o Demônio e as personificações das várias Virtudes que concorrem para o resgate da alma caída. O texto tem uma função de redenção e, ao seu final, a Alma redimida é levada para o céu, enquanto que as Virtudes, lideradas pela Humildade, acorrentam o Demônio, o que condiz com os princípios da igreja medieval.

    Ora, em sua obra máxima, Dante Alighieri trata, de certa forma, do resgate de uma alma, de sua volta ao “Allá diritta via”, isto é o “caminho certo”, no contexto dos valores, segundo ele, verdadeiramente caros a Deus. E ao mostrar essa trajetória, busca levar todos os homens a refletir e a seguir esse rumo. Tem, enfim, o propósito elevado de “salvação da alma” parecido com o que Hildegard abordou.

   A atitude da monja alemã se contrapõe ao jogo de interesses internos da Igreja Católica e ao “modus operandi” da instituição no fim da Idade Média. Na Itália, as igrejas românicas prezavam pela não verticalidade – ao contrário de lugares como a França, por exemplo. Ou seja, os italianos não olhavam para cima para louvar. Olhavam para seus iguais. Era o pensamento de que “Deus está entre nós”. Podemos citar as pregações profundamente humanísticas de São Francisco de Assis as esculturas de Andrea e Giovanni Pisano e finalmente os serenos e profundamente humanos afrescos de Giotto di Bondone.


   Tal idéia de Deus no mesmo nível de suas criaturas gera uma verdadeira revolução cultural. Assim, é justamente na Itália que viverá e professará sua obra Francisco de Assis (1182-1226), o qual se contrapunha a todo luxo e ostentação dos altos cleros da Igreja, pregando o desapego, a caridade e o amor ao próximo.

   Para Francisco de Assis, Deus está em tudo, inclusive, no próximo. Isso transforma todos os seres, em comunhão com a natureza, em irmãos. A visão mais positiva do homem e de sua relação com Deus – não mais calcada no medo, na subjugação e na opressão, mas sim na idéia de amor, de fraternidade, de comunhão da vida –, de certa forma, abre o caminho para o período humanista.

   Não causa estranhamento, portanto, que, com o tempo, artistas de renome em sua época tenham passado a apresentar uma produção inspirada pelas idéias de simplicidade, humildade e igualdade propagadas por Francisco de Assis. Giotto di Bondone (1266-1337) potencializou essa iniciativa ao máximo ao pintar santos como seres humanos de aparência comum. Nessa mesma linha, o pintor substituiu o fundo dourado (comum na Arte Bizantina e medieval em geral) das obras artísticas por imagens da natureza e do cotidiano.

   Aliás, ao se falar de Giotto, cabe apontar também o seu professor, Giovani Gualteri, mais conhecido pela alcunha de Cimabue (1240-1302), a quem se atribui a autoria de uma das imagens mais famosas de Francisco – “A Virgem com São Francisco, Anjos e Santos”. Esse afresco encontra-se na basílica de São Francisco de Assis, também ilustre por conter diversas pinturas de Giotto retratando passagens da vida do santo de Assis. Todavia, enquanto os afrescos de Cimabue ainda estavam presos ao estilo bizantino, as pinturas de Giotto já prezavam pelas inovações que caracterizavam seu estilo.

   Contemporâneo de Cimabue e de Giotto, Dante Alighieri também exaltou Francisco de Assis. E o fez no Canto XI do “Paraíso” de “A Divina Comédia”. Neste trecho, o personagem de São Tomás de Aquino faz um breve relato da história de São Francisco ao Poeta.

 

“Di questa costa, là dov’ella frange più sua rattezza,

nacque al mondo un sole,  come fa questo tal volta di Gange

Però chi d’esso loco fa parole,

Non dica Ascesi, ché direbbe corto, ma Oriente, se proprio dir vuole”.

Em Português:

"Onde o declive menos agro desce
Nasceu ao mundo um sol tão luminoso,
Como o que ao Gange às vezes esclarece.

"Desse lugar quem fale portentoso
Não diga Assis, que pouco declarará:
Chame Oriente o berço glorioso”.


   Com os versos acima, descreve-se o nascimento de Francisco de Assis. Ao longo do Canto, Dante chega a escrever que a Igreja ficou mais de onze séculos “viúva e desprezada” desde a morte de Jesus até o surgimento de Francisco. 

Mestres de Dante

   A partir dos séculos XI e XII, começa a ocorrer uma maior abertura do acesso ao conhecimento: este deixa de estar restrito aos ambientes internos da Igreja Católica e chega aos centros urbanos. Há também a expansão do modelo de universidade, o que fomentará o pensamento filosófico.

   A própria cidade de Florença – onde nascerá Dante – representa a ascensão de uma cultura urbana que desafia o domínio cultural da Igreja Católica.    

   É justamente neste cenário que surgiram pensadores com características já próximas das que viriam a ser propostas pelo humanismo. Alguns desses pensadores tiveram papel fundamental na formação de Dante. Brunetto Latini (1220-1294), por exemplo, exerceu profunda influência sobre o futuro autor de “A Divina Comédia”, uma vez que foi seu professor de retórica (outros dizem que ele teria sido um tutor de Dante após a morte do pai deste).

   O filósofo Latini, nascido em uma família nobre, teve destacado papel na política de Florença, alcançando sucesso também como escritor: exilado na França justamente por questões políticas, desenvolveu a enciclopédia “Li livres dou Trésor” em língua vulgar francesa. Também escreveu o “Tesoretto”, considerado por muitos como um precursor direto de “A Divina Comédia”.

   Apesar de haver colocado Brunetto Latini no “Inferno” em “A Divina Comédia” (canto XV), o poeta trata seu mestre com grande respeito e afeto. Por toda essa contradição, até hoje o episódio é objeto de diversas interpretações por parte de especialistas na obra.

   Por coincidência, Dante também teve um episódio de conflito com outra de suas principais influências: Guido Cavalcanti (1255-1300), grande amigo do autor de “A Divina Comédia”. Cavalcanti foi um dos maiores nomes do “Doce Estilo Novo” (Dolce Stil Novo), movimento poético conhecido por exaltar uma concepção espiritualizada do amor. Essa escola trouxe inovações para a poesia e para a língua italiana e teve Dante como um de seus seguidores (ainda no inicio da trajetória literária do escritor).

   Ocorre que Guido Cavalcanti era fortemente envolvido com a política de Florença. E por sua atuação nos conflitos entre as facções guelfas e ghibellinas Neri e Bianchi, acabou sendo exilado de Florença justamente por Dante, então um dos priores (governantes) da cidade, com o objetivo de manter a paz no local. Ainda assim, cabe ressaltar que a obra de Guido permaneceu relevante para bem mais além de sua época, influenciando até mesmo o famoso poeta norte-americano Ezra Pound (1885-1972).

   De todo o exposto, podemos ver, desde o fim da Idade Média, o desenvolvimento de um caminhar rumo a uma cultura humanista – que se concretizará efetivamente no Renascimento –, valorizando o ser humano, sua dignidade, suas aspirações e tratando de seus dilemas, como tão bem fez Dante em sua obra máxima, “A Divina Comédia”.   

São Paulo, outubro de 2015.

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